Iniciaria um curso para ampliar meus conhecimentos na área educacional e como eu poderia ajudar a Melissa no futuro. Era dia 19 de Novembro de 2016, um dia de sol com uma brisa fresca. Acordei às 06h da manhã, tomei meu café e peguei a estrada junto com minha mãe para a cidade de Vinhedo. Teríamos um final de semana cheio de informações para aprender mais sobre o Currículo Funcional Natural.

Através da parceria do Espaço Saúde Vinhedo e da Escola João e Maria, recebemos a palestrante Katrien Van Heurck, Ortopedagoga, Neuropsicopedagoga, Especialista em Autismo e Deficiência Intelectual. Katrien é Belga, desenvolveu em 1990, na Bélgica, um trabalho para pessoas com Autismo e outras deficiências e desde 2011 vem trabalhando aqui no Brasil com o objetivo de juntar o conhecimento teórico à prática.  

Primeiramente o que posso dizer de tudo o que aprendi neste final de semana é que quem conhece a criança é a família, portanto é de suma importância a participação ativa da família na educação e não passar a responsabilidade para a Escola que a criança estiver frequentando. Precisa existir uma parceria, uma troca de experiências entre a família, escola e todos os profissionais e terapeutas para atingir o sucesso escolar. Além disso, as crianças com Autismo e Deficiência Intelectual necessitam de uma rotina nas atividades, inclusive aos finais de semana.

O Currículo Escolar necessita ter uma adaptação, para que as crianças consigam acompanhar as atividades junto às demais crianças da sala.

O ortopedagogo é especializado à educação para deficiências. Ele é o tradutor para que as crianças entendam a função de cada atividade, de cada objetivo etc ajudando a trazer a independência da criança. Não trabalha apenas as atividades educacionais, mas também atividades emocionais.

As crianças sempre procuram algo a fazer com as mãos, se não tiverem atividades, vão em busca de algo seja perturbar um colega, se tocar, bater e assim por diante, pois precisam estar ocupadas. Por isso precisamos desenvolver atividades e rotina para estas crianças com atividades adequadas e não deixá-las se envolverem com coisas inadequadas.

Não importa a idade de cada um e sim a necessidade de cada indivíduo. Um exemplo que foi usado e achei muito interessante foi, atualmente temos inúmeras atividades e profissionais trabalhando com bebês a parte sensorial, porém um adulto com Microcefalia ainda necessita destas atividades e não vemos isso acontecer quando se trata de adultos, apenas bebês.

Então aí está a importância do Currículo Funcional. É uma metodologia/Filosofia para pessoas com dificuldades na comunicação, interação social, comportamento e aprendizagem. Tem o objetivo de tornar o aluno mais independente, produtivo e mais aceito socialmente.

Precisamos trabalhar o ensino Multifuncional. As crianças querem fazer coisas úteis, que tenham funções como varrer, limpar a casa, apagar a lousa, saber usar o dinheiro de verdade, usar a matemática e o alfabeto no dia a dia. As crianças tem a função da fala, mas nem sempre sabem se expressar, por exemplo, você questiona onde a criança mora e ela responde: “na minha casa”. Ela não está errada, mas por isso a importância de dar o sentido.

A deficiência intelectual caracteriza-se por um funcionamento intelectual inferior à média (QI). Essas pessoas têm dificuldades de fazer escolhas, é difícil e pode gerar estresse, ficar irritado, agitado ou se fechar. Eles têm ações, porém nem sempre entendem quais serão as reações de suas ações. Eles reagem muito por impulso e um exemplo simples para isso é: estou com fome. Param tudo o que estão fazendo para “matar” a fome, o impulso que foi gerado. Não conseguem esperar o momento certo. Pessoas com o QI dentro do padrão normal tem noção que existe tempo certo para as coisas e existem também comunicação verbal e não verbal que são as comunicações com duplo sentido da linguagem.

 

Currículo Funcional Natural

Como se inicia o Currículo Funcional. Primeiramente precisamos responder algumas questões, pois como falado anteriormente, esta atividade é individualizada, cada pessoa tem uma necessidade diferente, e esta precisa ser adaptada para o indivíduo.

“Quem é meu aluno? Como é meu aluno? Com quem ele vive? Como viverá?”

O objetivo do CF é melhorar a qualidade de vida da pessoa com impedimentos. Oferecer um ensino com oportunidades de aprender habilidades que os alunos se tornam mais independentes, competentes, produtivos e felizes. O Currículo Funcional Natural (CFN) facilita o desenvolvimento das habilidades essenciais, a participação em vários ambientes numa forma integrada. Mostra o trajeto para o aluno participar da vida social e independente, contando com a família e profissionais.

Quando falamos sobre o trabalho mais funcional com alunos com autismo ou DI profunda, não queremos dizer só o desenvolvimento das habilidades AVDs (atividades de vida diária) mas também as AVPs (atividades de vida prática) e todas as demais habilidades como cognitivas, sociais, lazer, psico-emocionais e acadêmicas.

Cada aluno é diferente e por isso devemos ter foco e metas diferentes, mas com um único propósito: AUMENTAR A INDEPENDÊNCIA E BEM ESTAR DO ALUNO. Os objetivos ensinados têm função para a vida imediata e longo prazo. Devemos trabalhar com as potencialidades das pessoas para que eles possam aprender e se desenvolver. Não devemos focar em erros, defeitos e impotências, mas sim no ponto forte, ensinar atividades que estão perto do dia a dia dos alunos, que aumentem sua independência.

 

Currículo Funcional Natural

Currículo Funcional Natural

Currículo Funcional Natural

Currículo Funcional Natural

Currículo Funcional Natural

Currículo Funcional Natural

Outro ponto importante é que deve ser divertido, deve dar prazer ao aluno em aprender e ao professor em ensinar. A aprendizagem já é um reforçador para ambos, devemos evitar as frustrações e o professor é um facilitador para os alunos. O Professor deve ensinar os alunos a pensarem, terem curiosidade, tendo como missão provocar a inteligência, espanto e curiosidade nos alunos.

Quais são os princípios do CFN:

  1. Pessoa deve estar no centro: é necessário enxergar o ser humano atrás do diagnóstico, tratar como amigo, respeitar.
  2. Concentração nas habilidades: os professores devem concentrar naquilo que seu aluno pode fazer e faz bem, sempre buscando e focando nas possibilidades.
  3. Todos podem aprender: olhar o aluno individual e fazer junto, adaptando o conteúdo (rotina visualizada, comunicação adaptada, material adaptado)
  4. Participação da família no processo de aprendizagem: fator fundamental para o avanço (70% família e 30% professores). Deve-se existir uma parceria muito grande entre pais e professores, pois os pais necessitam também de orientações sobre seus filhos, como lidar e ensiná-los. Deve-se prolongar o ensino para o ambiente familiar, casal, comunidade etc.

O importante é que o Programa educacional seja individualizado com necessidades atuais e futuras, deve-se ter participação da família, interação amistosa entre professor e aluno e ter um ensino organizado refletindo cuidadosamente sobre o planejamento que será feito junto ao aluno.

Para se criar as atividades adaptadas precisamos responder 3 perguntas:

“O que vamos ensinar (objetivos)? Para que vamos ensinar? Como ensinar (procedimentos, divertido e com menos número de erros)?”

- O que vamos ensinar? Para que vamos ensinar? Conhecer o aluno, família e o ambiente onde vive para poder ensinar o que é valioso para a criança e seu ambiente. As crianças aprendem, por exemplo, se a família é agressiva com muitas brigas e xingamentos => a criança assim será.

Sempre ter a pergunta em mente para poder adaptar sempre as atividades: Terá alguma utilidade para a sua vida? Se a resposta for negativa já é necessário buscar outra habilidade para ensinar. Para termos resultados efetivos devemos envolver as seguintes habilidades: vida diária, social e pessoal e ocupacional.

Temos que ter objetivos determinados (que tenha um contexto na vida do aluno, informações sobre o conhecimento e habilidades que ele tenha) e objetivos específicos (oportunidade do ambiente escolar, familiar, cultural, comunitário, enfatizar todos os aspectos da vida do aluno – social, acadêmico e linguagem.

Devemos identificar comportamentos e conhecimentos ainda não aprendidos, competências para tornar mais independente trabalhando as habilidades (autocuidado, cognitiva, lazer, psico-emocional e social) de acordo com sua idade cronológica.

Exemplo: Ensinar a comer sozinho. Pegar a colher, levar ao prato, transferir a colher com comida à boca.

Manter um Plano Educacional Individual (PEI) atualizado com identificação do aluno, informações escolares, fatores ambientais que funcionam como facilitadores ou como barreiras à participação e à aprendizagem, avaliações do aluno e um resumo dos indicadores de funcionalidade, potencialidades e nível de aquisição e dificuldades do aluno. Manter um Plano Educacional Especializado (PPE) que é mais detalhado com indicações dos conteúdos, objetivos e competências a desenvolver, quem vai ensinar, qual ambiente será realizado a atividade, horário do aluno com indicações dos ambientes e rotina, cada membro da equipe multidisciplinar fará a avaliação e observação do aluno e isso ficará no CFN dele para que no futuro, se novos profissionais forem trabalhar com este aluno, eles já possam ter um histórico e não reiniciar o processo, o aluno conseguirá continuar seu desenvolvimento.

- Como ensinar? Existem 13 procedimentos básicos:

1- O educador deve ensinar com entusiasmo e motivação: atividades criativas, divertidas e lúdicas.

2- Tom de voz e linguagem deve ser natural, com tom de voz baixo.

3- Enfatizar as habilidades positivas do aluno: evite o uso da palavra não

4- A atenção do aluno deve ser garantida: professor deve evitar falar de costas

5- As ordens dadas devem ser claras: evitar muita falação – fale e mostre

6-As ordens devem ser aquelas indispensáveis: dar um comando de cada vez, dê tempo para executar

7- As ordens não devem ser repetidas mais de 2 vezes: dê tempo para tentar novamente, use falas ou ações diferentes

8- Deve ser dado um tempo suficiente para a resposta do aluno: aceite o ritmo do aluno, respeitar o processo de receber a informação e emitir a resposta

9- O profissional deve se manter calmo: amor, afetividade, evitar reações exageradas, reagir positivamente antes de acontecer a ação inadequada

10- Educador deve brincar e interagir como amigo: amigo você respeita, professor acredita no aluno, brincar junto traz mais resultados positivos

 

Currículo Funcional Natural

 

11- Elogiar: sempre no momento, na hora da ação com uma recompensa positiva pois é importante para o aprendizado. O mesmo serve para o castigo, deve ser dado no momento da ação, não muito depois pois pode atrapalhar o entendimento.

12- Ajuda física deve ser evitada, só se for necessário: evitar fazer as coisas para eles, evitar a palavra coitadinho

13- Aproveite os interesses para o ensino de novas habilidades

Currículo Funcional Natural

Currículo Funcional Natural  Currículo Funcional Natural

Resumidamente precisamos ter uma educação adaptada para que as crianças aprendam e tenham o máximo de independência possível na vida adulta. Nossos filhos são pensadores visuais, ou seja, precisamos usar componentes visuais e estruturar o ambiente para usarmos esta qualidade a favor. O foco maior é no ensino de habilidades de comunicação e interação social, de forma individualizada para cada aluno.

Temos que ter uma atenção muito grande no lugar do ensino, na rotina, na comunicação adaptada e no programa de atividades.

Outro ponto importante é a Organização Física do local que deve ser adaptado, ter uma sala espaçosa para que o aluno tenha uma visualização total do espaço, ambiente tranquilo e com estrutura fixa e não esquecer que todos os ambientes são forma de aprendizado, não necessariamente precisa estar dentro da sala, qualquer outro ambiente já é um local para ensinar algo como cozinha, rua, supermercado, horta etc...

Espero poder ter ajudado dividindo o que pude aprender no curso e estaremos sempre disseminando o máximo de informações para todos sempre.